“A mão por detrás do arbusto!”

A política local agitou-se de sopetão com a demissão de Miguel Faria: se alterações assim eram provavelmente esperadas em 2020, agora podem ser inconvenientes para “a mão por detrás do arbusto”! E a quem pertencerá esta mão?…

O Presidente da Comissão Política do Partido Socialista/Felgueiras demitiu-se, e embora Miguel Faria não assuma uma causa efeito entre a indicação de António Faria a candidato a Deputado à Assembleia da República nas listas do PS – ele que é filho de Júlio Faria, chefe de gabinete do Presidente da Câmara Municipal de Felgueiras, elemento central na candidatura de Nuno Fonseca -, e a sua demissão, é inevitável concluí-lo. E eu até estou perfeitamente à vontade para comentar este assunto pois discordei politicamente de Miguel Faria, recusando integrar a sua Comissão Política e explicando-lhe de forma frontal e transparente os motivos para a minha recusa! Ou seja, de mim sempre soube o que esperar, ao contrário do que provavelmente aconteceu com outros. Poderemos concluir que o PS/Felgueiras se tornou agora demasiado pequeno?… Ou, se como já assumiu Inácio Lemos (ex-líder da concelhia) Miguel Faria foi apenas a primeira vítima política da “Geringonça de Felgueiras”?

É naturalmente óbvio que o Presidente de Câmara necessita de ter a estrutura concelhia do PS sob controlo: foi o Partido Socialista que indubitavelmente lhe permitiu chegar onde está e, será necessário para “lutar” pela continuidade na “cadeira de sonho”. Se recuarmos dois anos existem três factos/momentos que não podem, nem devem, ser dissociados: Nuno Fonseca é o “escolhido” (onde é que eu já ouvi: “eu fui o escolhido para ser o Presidente de Câmara”) para protagonizar a candidatura do Partido Socialista em Felgueiras (embora usando o subterfúgio de uma candidatura independente apoiada pelos socialistas); António Faria é indicado para candidato a Deputado à Assembleia da República no círculo eleitoral do Porto; Miguel Faria demite-se da liderança da Comissão Política do PS a pouco mais de 2 meses das eleições legislativas (e é necessário mobilizar as hostes para a campanha) e, a menos de meio ano das eleições internas para a nova Comissão Política que terá como missão principal a condução do processo eleitoral autárquico de 2021!

Na sua mensagem de demissão Miguel Faria invoca motivos pessoais, e ao Expresso de Felgueiras Nuno Fonseca disse que “nunca se vai intrometer nas decisões das pessoas e dos partidos”! Só que do ponto de vista de comentário analítico, tenho para comigo de forma legitimamente lógica que nem António Faria assumiria perante o Secretariado do PS/Felgueiras (um órgão do partido de que não é membro) a intenção/vontade de ser candidato a deputado sem informar previamente o “seu” Presidente (tal constituiria até uma “traição” política e pessoal), nem sem ter o seu aval, exatamente pelas mesmas razões. Além disto, e projetando as próximas eleições autárquicas de 2021 é necessário garantir paz política em torno da recandidatura, e por mais que Nuno Fonseca reafirme a sua total independência e negue qualquer interferência o espaço para a interpretação está aberto, ele tem e necessita de ter, de facto, pelo menos, poder informal no PS/Felgueiras, e para isso basta analisar uma linha do tempo! Mas a vida dá tantas voltas que o PS até poderá acolher nas suas listas à Assembleia da República quem esteve do “outro lado”, do lado do contra, e contribuiu para derrotas do partido em Felgueiras! Será que para alguns do passado não reza a história? O ditado diz precisamente o contrário…

Na linha do tempo as relações de Nuno Fonseca com o PS não começaram no tempo de António Costa nem sequer de António José Seguro, sendo necessário recuar ainda mais um pouco. Aliás, como foi claro para todos no Jantar das Europeias realizado na Lixa uma das pessoas pessoalmente mais próximas do atual Presidente da Câmara de Felgueiras é João Azevedo que cumpre o último mandato como Presidente da Câmara de Mangualde – por força da limitação de mandatos – e que tem naturalmente influência na estrutura nacional do PS de António Costa, ou não tivesse sido Diretor Nacional da Campanha  – vitoriosa – às Europeias. Por isto, e também por outras razões que o espaço não permite agora, é ilegítimo pensar que a escolha de Nuno Fonseca em detrimento de Pedro Araújo pelo PS foi apenas uma “disputa” de personalidades, de competência e de projeto político (aliás se fosse por isso a escolha talvez tivesse sido diferente). Seguindo em frente no tempo, a 26 de abril de 2018 realizou-se um evento que para alguns foi um reatamento da comemoração do 25 de abril de 1974 pelo PS/Felgueiras mas que se constituiu, de facto, como a comemoração dos 6 meses de mandato da comemoração da vitória do Sim, Acredita!, e onde foi esta a estrutura que sobressaiu, e onde até o indicado a Deputado discursou…

Mas voltemos agora ao Jantar das Europeias/2019 na Lixa: onde esteve Miguel Faria, o Presidente da Comissão Política do PS/Felgueiras? Foi subalternizado, e consequentemente a estrutura local dos socialistas em detrimento de Nuno Fonseca (reiterado “independente”), não discursando (nem sequer para dar as boas-vindas aos convidados, entre os quais o Secretário Geral António Costa); não integrando a “fotografia de grupo” onde estavam Costa, Pedro Marques, Miguel Pizarro e… Nuno Fonseca! Mais recentemente, realizou-se na Lixa o evento “O Porto no Programa do PS – Encontro na Região do Tâmega e Sousa”: Miguel Faria esteve na última fila, Nuno Fonseca (o não socialista mais socialista da região) esteve no palco, e Marco Silva na primeira fila. Entretanto António Faria foi indicado como candidato a Deputado… É visível que infelizmente, ao contrário do que aconteceu em outros tempos, neste tempo em que o PS até apoia o Executivo Municipal (é assumida inclusivé como uma autarquia socialista), a estrutura local é sistematicamente menorizada a favor de um movimento independente que foi apoiado por duas estruturas partidárias!

A sucessão de acontecimentos permite comentar que a demissão de Miguel Faria da liderança da Comissão Política do PS/Felgueiras assume grande relevância e é facto muito importante na política concelhia, devendo ser entendida não como a politicamente correta afirmação de que é uma demissão por motivos pessoais, mas como gotas de água que ao longo de praticamente dois anos fizeram transbordar um copo, de um partido que como eu disse deveria ter assumido uma posição de parceiro e influenciador da governação municipal, mas que acabou subalternizado e acantonado às “mãos” do Sim, Acredita!.

Aparentemente, a saída de Miguel Faria, que não foi consensualmente defendido pela estrutura que lhe devia absoluta lealdade política, viabiliza a chegada à liderança de Marco Silva, quando aquilo que deveria acontecer seria a demissão de todos os elementos do Secretariado para a necessária clarificação política na estrutura do PS/Felgueiras!