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Da economia circular ao cidadão

Os sinais de degradação ambiental já são visíveis há muito tempo, mas hoje começamos a ver uma maior preocupação por parte dos governos e da União Europeia.

Temos uma Europa completamente dependente de importação de matérias-primas, que tem apenas 9% de capacidade interna para 54 dos materiais essenciais à produção. Esta situação aumenta a dependência, aumenta os custos que se vão repercutir no consumidor final.

Até ao momento aquilo que vamos assistindo por toda a Europa, salvo honrosas exceções, é o designado modelo linear, em que extraímos os recursos, que são processados e transformados em produtos sendo vendidos e depois “deitamos ao lixo”. O destino final é a valorização energética e aterro. Na Europa apenas 31% dos resíduos são valorizados através da reciclagem.

O que se pretende – durante uns anos de forma tímida, mas agora de forma mais assertiva – é passar para o modelo de economia circular. De uma forma simplista é que os materiais usados, e cujo destino final é a valorização energética e aterro, possam ser reintroduzidos na economia, através de uma maior capacidade de reciclagem e reintrodução dos produtos num novo ciclo de vida.

Por cá, já temos um “Plano de Ação para a Economia circular em Portugal 2017-2020” que define um conjunto de metas e procedimentos a adotar. A União Europeia apresenta no âmbito do seu programa “Zero Waste Europe” um conjunto de diretivas a serem transpostas para os estados membros. A título de exemplo, até 2030 é pretendido que 70% dos materiais usados sejam reciclados e que haja uma redução de 50% de desperdício alimentar. Até 2035 apenas 10% de todos os resíduos produzidos tenham como destino um aterro.

Mas todas estas metas requerem um esforço que não é fácil nem rápido e não pode ser composto apenas por ações do Governo (top-down) nem por consumidores, empresas e municípios (bottom-down). Todos os agentes económicos terão que estar envolvidos.

Por falta de espaço não elencarei as principais medidas de todo o ciclo económico, mas apenas referir aquelas que mais importam ao cidadão. A única forma que existe de incentivar o cidadão a reciclar (corretamente) e aumentar o nível de separação de resíduos é criar descriminações positivas para aqueles que reciclam, por exemplo através do sistema PAYT (pay-as-you-throw) em que cada um paga exatamente os resíduos que produz e não de uma forma indexada ao consumo de água/tipo de utilização (habitação ou comércio/indústria). Para isso é preciso “educar” o cidadão (não, não me refiro àqueles que teimosamente deitam o “lixo” pela janela do carro depois de uma refeição de fast-food, esses são apenas porcos) à correta separação e reciclagem. Mesmo aí, há um trabalho a desenvolver pelas autarquias/empresas concessionárias da recolha. É necessário fornecer sistemas práticos, pensados para serem utilizados em qualquer habitação, grande ou pequena, para que ao contentor do lixo não vá parar mais do que os resíduos orgânicos e quando não for possível a valorização orgânica, vulgo compostagem.

Felgueiras tem ainda o caso particular dos resíduos provenientes da indústria do calçado. Das muitas utilizações que se veem apontadas, nas redes sociais, aos resíduos de peles (a maior preocupação), estas carecem de dimensão e escala económica suficiente para reciclagem. Felgueiras produz, estimadamente, 9 mil toneladas de resíduos de calçado ano que essas soluções não são capazes de absorver.

Este novo enquadramento veio criar oportunidades de melhorar a criação de calçado ecofriendly, mas que precisa que fornecedores e produtores tenham o mesmo objetivo.

O nosso setor económico principal agradece e o ambiente ainda mais!

 

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