De quem é a culpa?

Uma semana após as eleições legislativas já todas as estruturas partidárias fizeram, ou deviam ter feito, as suas reflexões internas acerca dos resultados.

Um pouco ao jeito do que acontece no futebol, quando se ganha a vitória é de todos, mas quando se perde a derrota é só de um, do líder.

Também na política costumava ser assim. No CDS, que sofreu uma pesada derrota, foi assim. Assunção Cristas não precisou de grande reflexão para saber o caminho que devia seguir e fê-lo ainda na noite das eleições antes que alguém lhe indicasse o caminho.

 

“Na noite das eleições ficou claro que, para Rui Rio, a culpa é de tudo e de todos menos sua”

 

E no PSD?

O resultado acabou por não ser tão catastrófico quanto o ponto de partida fazia prever, mas também não foi tão bom (menos maus, entenda-se) quanto os últimos dias de campanha faziam prever.

Apesar de o PSD ter recuperado cerca de 10% face às intenções iniciais, os resultados não deixaram de ser muito maus e piores ainda quando ficou a sensação que essa recuperação nem se deveu tanto ao mérito das alternativas que o PSD apresentava, mas mais aos podres do PS, como o caso de Tancos, golas anti fumo, tentativa de agressão ao velhinho, etc.

De quem é a culpa?

Na noite das eleições ficou claro que, para Rui Rio, a culpa é de tudo e de todos menos sua.

Culpou a conjuntura económica favorável. Internamente, aos militantes, até podia tentar usar esse argumento, agora dizê-lo ao país ficou-lhe mal. O caminho deveria ter sido o de demonstrar que o PSD é capaz de fazer bem melhor que o PS, que governou em tempo de “vacas gordas”.

Culpou os jornalistas.

E até para dentro do partido apontou o dedo, como se o pastor não fosse responsável por gerir o rebanho…

Apesar de ter razão em tudo e tudo, na sua quota parte, ter contribuído para o resultado, esperava-se que também fizesse a sua autoavaliação, o que não fez e estou certo que jamais aceitará qualquer parcela de responsabilidade.

Mas então de quem é a culpa?

A de quem fez oposição interna a Rui Rio bem antes dos atos eleitorais ou a dele que, após ter assumido a liderança do partido, cortou a torto e a direito com toda e qualquer voz crítica?!

Rui Rio teve um problema. É que não é presidente do PS, mas sim do PSD.

É que, enquanto que no PS, nos momentos mais importantes, os descontentes “engolem sapos” e juntam-se à malta para comer à mesma panela, com medo que a panela vá para a mesa vizinha, no PSD isso não acontece, as pessoas mantêm a sua capacidade crítica.

Outro fator que não ajudou foi o de Rui Rio, durante meses, se ter colado excessivamente ao PS.

Quis transmitir aquilo em que, de facto, acredito: que as suas ações enquanto Primeiro-ministro se iriam nortear apenas pelo superior interesse de Portugal (“Portugal Primeiro”) e não por interesses partidários e pessoais, como é apanágio dos socialistas.

O problema é que quis-se colar tanto ao centro e ao PS, que deixou de se mostrar como uma alternativa de governação.

E foi isso que os resultados demonstraram. A maioria dos portugueses não viram no atual PSD uma alternativa para governar nos próximos 4 anos (se lá chegarmos…, o que duvido).

Agora, ou há um rápido regresso à defesa dos verdadeiros valores do PSD, sem medo de os assumir – porque o PSD tem, de facto, uma visão dogmática para o crescimento do país e não uma como a do PS que diz que combate a pobreza, mas a verdade é que se não houver pobres deixa de ter matéria para trabalhar e como todos reconhecem, nenhum socialista fica sem trabalho… – ou o PSD vai perder terreno para partidos mais à direita, como a Iniciativa Liberal (e até mesmo o Chega, com um pouco mais de moderação que André Ventura já anunciou), que demonstram não ter papas na língua, nem qualquer receio em tocar com o dedo na ferida, e o PS tem muitas, e o nosso país tem ainda mais.

Por isso, está mais que na hora de clarificar a liderança para atacar o quanto antes as autárquicas de daqui a dois anos e, para isso, não há outro caminho que não seja o de convocar eleições o mais rapidamente possível. É desejável que todos os críticos participem e que se encontre um novo líder ou que se reforce a liderança de Rio, esperando que, num caso ou noutro, não apareçam mais Santanas Lopes, que após ter perdido contra Rio, mostrou que é “gente que não sabe estar” e criou um partido para poder ser líder.

 

“No PS, nos momentos mais importantes, os descontentes ‘engolem sapos”’e juntam-se à malta para comer à mesma panela

 

A nível local, o resultado do PSD foi melhor que a média nacional e também distrital, no entanto não deixou de ser também um muito mau resultado, sobretudo se tivermos por referência os resultados das legislativas de 2015 em que Felgueiras foi o único dos 308 concelhos em que a Coligação PSD-CDS teve mais votos que os dois partidos juntos em 2011.

Também em Felgueiras é tempo do PSD refletir e acima de tudo começar a preparar e urgentemente as autárquicas de 2021.

Que o PSD Felgueiras não espere que os descontentamento e fraturas que vão sendo conhecidas no seio do PS venham a facilitar a sua posição. A esse respeito, vou repetir o que disse acima: “(…) no PS, nos momentos mais importantes, os descontentes “engolem sapos” e juntam-se à malta para comer à mesma panela, com medo que a panela vá para a mesa vizinha (…)”.