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ENTREVISTA: José Campos recebeu justa homenagem dos “seus” Bombeiros da Lixa

Em entrevista ao Expresso de Felgueiras, ex-comandante dos Bombeiros da Lixa, José Campos, fala da sua relação com a associação e o corpo de bombeiros, onde foi comandante durante 36 anos.

Num estilo muito próprio e sem rodeios, considera que a população e as comunidades deixaram de sentir os bombeiros como seus, afirmando que a população deve olhar para os bombeiros como sendo, também, seus.

José Campos considera existir uma falta respeito do poder central para com os bombeiros e recorda que 85% do serviço de emergência médica continua a ser realizado pelos bombeiros portugueses, sendo que o INEM faz apenas 15% dessas emergências.

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José Campos comenta a tão propalada municipalização dos bombeiros e mostra-se preocupado com a tentativa de intromissão do poder político das estruturas ligadas aos bombeiros. A este propósito frisa, mesmo, que as associações que suportam os soldados da paz estão a ficar cansadas e podem transformar-se em correias de transmissão de alguns partidos políticos.

 

Expresso de Felgueiras: Que significado teve para si a homenagem que lhe foi prestada pelos Bombeiros da Lixa?

José Campos: Trinta e oito anos é uma vida. Estive na corporação da Lixa dois anos como auxiliar de bombeiro, 21 como segundo comandante e 15 como comandante. Costumo dizer que tenho mais anos de bombeiro que a minha filha mais velha tem de idade.

Há aqui muitas coisas que fazem parte na minha vida, pessoas que conheci, que me marcaram e que estão indissociavelmente ligadas ao meu percurso nos bombeiros. Conheci pessoas boas, algumas já faleceram que me ensinaram a ser bombeiro, mas, também, gente mais nova, com valor, que ficou no corpo ativo para continuar esta missão única que está atribuída aos bombeiros.

Não quero que façam de mim nenhum herói. Acho que devemos relevar aqueles que há 127 anos, em condições adversas criaram o corpo de bombeiros numa terra destas.

EF: Recorda-se o que é que o levou a ingressar na Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Lixa?

JC: Recordo-me, mas tenho reminiscências que só mais tarde descobri. O que me levou para os bombeiros em 1978, dois anos, depois de ter casado, foi o estar disponível para servir uma comunidade na qual me integrei, porque não sou natural da Lixa. Como queria ser útil e tinha tempo livre ocupei-o com essa disponibilidade para estar ao serviço da comunidade.

Mas tenho, nestes últimos anos, dado umas voltas ao meu pensamento e cheguei à conclusão que já existia um bichinho dentro de mim que, se calhar, foi aflorado nessa altura, quando fui para os bombeiros. Os soldados da paz, nessa altura, em 1978 tinham muitas dificuldades, uma realidade que era extensível a muitos corpos do país, tinha poucos carros, poucos bombeiros, poucos equipamentos, faltava quase tudo. A única coisa que havia de grande valor era a disponibilidade dos homens e a sua força para estarem disponíveis. Senti que poderia ser útil à corporação e à comunidade.

Mas tenho andado a fazer alguma retrospetiva e cheguei à conclusão que o meu avô era o responsável permanente de uma empresa que havia em Lever, designada Fiação de Crestuma, que tinha um corpo de bombeiros privativo e cujo meu avô era o comandante desse corpo de bombeiros. Era o encarregado geral, uma espécie de diretor fabril, o que me permitiu a mim, à data, ainda criança, tocar nos carros, nas sinetas dos carros e brincar aos bombeiros. Julgo que a minha tendência teve aí as suas origens porque não tive mais ninguém na família que fosse bombeiro. Tive o meu avô, o meu pai não teve essa possibilidade e dos dez irmãos que tenho nenhum quis ser bombeiro. Sou o único que seguiu esta atividade.

EF: Tem inúmeras histórias e peripécias ao longo destes anos. Qual foi a que mais o marcou?

JC: O que me marcou mais foi a entrega de um grupo de homens que sempre deram o seu melhor em prol da associação e da comunidade. Os bombeiros não recebem rigorosamente nada como eu nunca recebi por ter estado este anos ao serviço da comunidade. Independentemente das criticas, injustas a maioria, que o povo nos faz, ou porque chegamos tarde ou por outra razão, continuo a defender que os soldados da paz nos merecem total gratidão. Compreendo estas situações, mas o que mais marca é esta disponibilidade que independentemente das criticas, das injustiças e da falta de reconhecimento, cada bombeiro tem de querer de forma abnegada ajudar o próximo e dar o seu melhor.

EF: A Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Lixa é hoje uma referência na região? Está bem equipada de meios?

JC: Os bombeiros nunca estão satisfeitos com o que têm, mas acho que temos de ser ponderados. Enquanto estive ao serviço do corpo de Bombeiros da Lixa, independentemente das dificuldades que as direções sucessivas que trabalharam comigo, sempre me deram e ao anterior comandante as condições necessárias para desempenhar a função dentro dos parâmetros normais que são exigidos. Evidentemente que há carros que hoje necessitam de ser substituídos, não só por razões de falta de comodidade, mas também pelos custos inerentes à sua manutenção. As direções futuras terão de repensar um processo diferente de substituição para que as frotas sejam renovadas, os bombeiros circulem em segurança e as vítimas que transportamos, também, tenham mais comodidade.

A referência que temos no nosso meio resulta daquilo que foi sempre a preocupação tida pelo comando, e nestes últimos anos, por mim, no sentido de responder àquilo que é a nossa missão. Os bombeiros têm uma área de atuação própria, da qual o comandante é responsável por tudo o que possa acontecer de mau quando o socorro não é eficiente. Temos competências que nos são delegadas pelo Estado para prestar socorro às pessoas que sejam alvo de acidentes ou de outras enfermidades e muitas vezes não queremos assumir isso. Ora, há que pôr um patamar de exigência a todos os bombeiros de modo a que cumpram aquilo que é um compromisso e que é uma questão de confiança que o Governo coloca em nós para o substituirmos. Quando digo Governo refiro-me ao poder autárquico, aos responsáveis regionais e ao Governo central que não tendo capacidade, isto não é dito muitas vezes, o Estado não tem bombeiros, os soldados da paz são das comunidades. O Estado não tem bombeiros nem as autarquias. Existem 308 municípios no país, só 27 municípios é que têm bombeiros municipais. Custa muito às estruturas estatais e concelhias a manutenção de um corpo de bombeiros.

Os autarcas que têm corpos de bombeiros disponíveis para acorrer àquilo que são as adversidades da sua população deve dar graças a Deus e deve apoiá-los o mais possível. Há autarcas que não gostam de ouvir isto.

EF: É o caso de Felgueiras?

JC: Como disse, os bombeiros nunca estão satisfeitos. Queixamo-nos sempre que a autarquia deve ajudar mais, mas comparado com outras autarquias não podemos dizer que estamos muito mal. Há autarquias pelo país e conheço um pouco o que se passa pelo país, que tratam muito mal os seus bombeiros. Aqui não se passa isso felizmente.

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EF: As áreas de intervenção das corporações da Lixa e de Felgueiras estão bem definidas?

JC: Através dos sistemas integrados de assistência médica e do sistema integrado de proteção e socorro, os corpos de bombeiros cooperam uns com os outros. Quando não tenho meios tenho de pedir ao meu vizinho. Isto é assim. Sempre foi assim. Hoje as coisas estão mais bem definidas. Existe uma complementaridade. A nível nacional, os bombeiros trabalham em subsidiariedade, isto é, quando não tenho capacidade de socorrer, solicito apoio às corporações mais próximas. As guerras que existiram no passado isso acabou. Hoje, os bombeiros do sul vêm para o norte e os do norte vão para o centro e para o sul.

Há uma primeira área que é a área de intervenção própria de atuação do corpo de bombeiros em que temos de responder em primeira mão, mas quando as coisas ultrapassam a nossa capacidade de resposta ou por falta de elementos ou veículos temos de pedir ao vizinho.

Não faz sentido que todos os corpos de bombeiros tenham uma autoescada, equipamento que custa mais de 600 mil euros.

Por outro lado, há que dizê-lo as populações gostam dos bombeiros, mas não ajudam como antigamente.

EF: Por que é que diz isso?

JC: Hoje difundiu através da comunicação social a ideia de que o Estado dá para os bombeiros, o que não é verdade e isto tem que ser dito. Há muita gente que cofunde proteção civil com os bombeiros. São duas coisas distintas. Os bombeiros são um agente da proteção civil. A proteção civil é uma responsabilidade do Estado e das autarquias. Os responsáveis políticos nos seus eloquentes discursos dizem sempre que o principal pilar da proteção civil são os bombeiros. O reconhecimento é que não é não compatível com o discurso.

De forma que as populações, hoje, não estão tão generosas com no passado. Se for ver o número de sócios que cada corporação tem e cujos associados pagam uma média de um euro por mês, são escassos. Presentemente, as populações não sentem tanto que os bombeiros são seus como no tempo em que não se falava tanto em apoios aos soldados da paz.

EF: Deixou de haver uma identificação com os bombeiros?

JC: Até nas próprias cores das viaturas. Os bombeiros antigamente era todos vermelhos. Hoje, a própria legislação impõe que os bombeiros tenham viaturas de socorro de são vermelhas, viaturas de combate a incêndios que são vermelhas, mas temos protocolos com o INEM que temos dentro do nosso quartel, uma ambulância amarela e toda a gente quer a ambulância amarela. Mais, o INEM e o próprio Ministério da Saúde impõe que os veículos de transportes de doentes que são propriedade dos bombeiros sejam brancos com riscas vermelhas. Há aqui gente que está a matar a própria identidade dos bombeiros e nós não conseguimos impormo-nos ao contrário da Cruz Vermelha que tem as viaturas todas brancas e vermelhas quer sejam de transporte de doentes ou de socorro.

EF: Não conseguem porquê?

JC: Por falta de respeito do poder central para com os bombeiros.

EF: O poder central não tem tratado bem os bombeiros?

JC: Acho que não. Basta ir aos quartéis dos bombeiros e temos viaturas de todas as cores. Isso não se vê em lado nenhum.

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EF: Considera que há uma tentativa de minimizar a função dos soldados da paz?

JC: Não existe uma tentativa de minimizar a função e o trabalho dos bombeiros. Há uma entidade que é a Liga dos Bombeiros Portugueses que superintende os interesses dos bombeiros mas não tem tido a devida consideração por parte do poder central.

A própria lei diz que a Liga dos Bombeiros Portugueses deve ser ouvida em toda a legislação que sai para o setor dos bombeiros. A Liga emite a sua opinião, mas não é respeitada. A Liga diz que os carros dos bombeiros têm de ser todos vermelhos e o Ministério da Saúde que é uma entidade que não tem nada a ver com os bombeiros, porque quem tutela os soldados da paz é o Ministério da Administração Interna, refere que as ABTM e as de transporte de doentes não urgentes são brancas. Pergunto por que é que não fazem essa imposição à Cruz Vermelha?

O Ministério da Saúde deve, isso sim, dizer que a célula sanitária de qualquer ambulância tem de ter isto, isto e aquilo como acontece para as ambulâncias da Polícia, do Exército e da GNR e como acontece com as ambulâncias do INEM.

A cor é a nossa identidade e a nossa identidade está a ser ferida. Isto divide, desanima, fere os bombeiros na sua plenitude e os que gostam dos bombeiros.

 

“Incêndios correspondem a 7% da atividade dos bombeiros”

 EF: Falou-se, nos meses quentes, na operacionalidade no socorro. Considera que esta tem vindo a aumentar?

JC: A eficácia tem vindo a aumentar porque os bombeiros estão melhor formados e equipados. Existem equipas permanente que acorrem ao primeiro alerta que é chegado aos bombeiros. Quando os fogos assumem uma determinada dimensão há um sistema de mobilização aos bombeiros de proximidade para que agarrarem no incêndio. Não gosto muito de falar nos incêndios. Nos últimos dez anos, os bombeiros representam apenas 7% da atividade dos bombeiros. 2013 e 2014 foram anos com muito incêndios e área ardida, no ano passado foi menor e este ano voltou a ganhar proporções, mas existem remédios para acabar com esta calamidade. Não é necessário fazerem-se mais estudos. O diagnóstico está feito é preciso é implementar as soluções. Falta a coragem política para implementar essas medidas ou falta a decisão política que tem diversos patamares: a fiscalização, a punição. A legislação existe. Dá a impressão que está tudo por fazer. Não!

Aquilo que tem de ser feito e que pouca gente fala é voltar a implementar no país e nas áreas de risco mais elevado a figura dos guardas florestais. É preciso reabilitar essa profissão porque nem tudo o que existia no passado é mau. Temos é que nos adaptar aos novos tempos. Criam-se guerras e batalhas desnecessárias. Temos é de pegar no que existe e adaptar aos novos tempos.

Hoje temos bombeiros bem formados necessitamos é de treiná-los e incentivá-los a serem mais disponíveis. É necessário criar um conjunto de incentivos, mas, também, as respetivas responsabilidades porque não vale a pena ser bombeiro para ter um subsídio para as propinas, ou beneficiar dos inventivos previstos nos regulamentos sociais que as autarquias criaram se não se cumpre com os serviços mínimos.

Existe um outro problema social, as mulheres, de hoje, não são como as de antigamente. As mulheres mandam nos bombeiros. As tarefas de uma família são dividas entre o marido e a mulher. Dantes dificilmente um homem fazia tarefas em casa, tradicionalmente adstritas às das mulheres. Hoje, o bombeiro tem, também, essa tarefa e é preciso criar todo um ambiente que os motive a estar nas corporações e que os obrigue a serem melhores gestores do seu tempo.

EF: Considera que ao nível das empresas existe disponibilidade para colaborarem com os corpos de bombeiros e libertarem os funcionários/bombeiros sempre que ocorre alguma situação?

JC: Tem de haver e serem criados, igualmente, incentivos para as empresas que é uma coisa de que ninguém fala. Uma empresa que tenha um bombeiro no seu interior tem de se mentalizar que tem, ali, um potencial servidor para um momento de infortúnio que possa surgir na empresa. As empresas desde 2009, também, por legislação são obrigadas a terem sistemas de resposta para princípios de incêndio e questões relacionadas com saúde, têm de fazer simulacros, planos de emergência e testes de evacuação. Uma empresa que tenha mais do que um bombeiro ou que admita nos seus quadros bombeiros também devem ter incentivos. Em contrapartida, numa situação de anormalidade deve permitir que ele saia do seu trabalho normal. A lei já prevê que um bombeiro possa faltar três dias por mês seja para cumprir com um serviço de emergência ou para ir fazer formação. A empresa não tem nenhum prejuízo com isso. Paga-lhe na mesma e se quiser ser ressarcida por esses três dias, o que corresponde a 36 dias por ano, pede o retorno e a Autoridade Nacional de Proteção Civil que paga à empresa esse dinheiro. São coisas que ninguém sabe.

A empresa estando mais segura vai baixar a apólice de seguro da sua unidade fabril, beneficiando, também, com isso. Esta sensibilização não está a ser feita.

Há uns anos atrás qualquer bombeiro que fosse pedir um empréstimo ao banco até com benefícios ou protocolos negociados com a Liga dos Bombeiros com vista a ajudar os soldados da paz, quando chegavam lá e se dizia que era bombeiro voluntário automaticamente agravam o seguro, o que vera um perfeito absurdo.

EF: É sabido que o concelho tem uma mancha industrial bastante significativa. Existem planos de emergência internos nas empresas?

JC: As empresas têm de ter planos de emergência internos, dispor de um plano de segurança e não há nenhuma empresa licenciada que possa furar isto porque a autarquia impõe o cumprimento das regras. A única entidade que licencia tudo na área do município é a câmara municipal e como tal, não há nada que se construa num concelho sem que o presidente ou o vereador competente tenham que emitir a licença de utilização. Todas as outras entidades dão apenas pareceres que podem ou não serem respeitados. A câmara quando licencia uma fábrica recolhe todos esses pareceres e tem de respeitar todas as regras de segurança que já estão plasmadas na lei.

As empresas, hoje, são muito mais seguras e não vale a pena andar a mentir. Mesmo antes de entrar a funcionar, as empresas são submetidas a uma vistoria para perceber se tudo foi feito de acordo com as regras e depois disto tudo tem de existir um plano de emergência de resposta a uma situação anormal que resultou da quebra da cadeira de segurança, de uma catástrofe ou uma ação inopinada provocada por um funcionário ou incidente interno.

Esta é uma coisa que muito pouco gente cumpre. Compete às entidades responsáveis fiscalizar. Quem não cumprir tem de ser punido.

Sou técnico de higiene e segurança, sou formador de técnicos de segurança orientei muitos planos de emergência e sei do que estou a falar. O concelho está seguro, os corpos dos bombeiros têm pessoal e equipamento para responder a quaisquer situações anómalas que possam surgir.

 

“Estou convencido que se a municipalização dos bombeiros for avante as populações vão ficar mais mal servidas”

 

EF: Defende a municipalização dos bombeiros?

JC: Acho que o voluntariado deve persistir e vai existir sempre. Face a alguns doutos pensadores que acham que só o profissionalismo e que é bom, estou convencido que se a municipalização for avante as populações vão ficar mais mal servidas.

Reconheço que deve existir um grupo de profissionais para dar a resposta nos primeiros minutos após o alerta chegado ao quartel. Se tiver cinco indivíduos devidamente treinados e o mesmo acontecer noutras corporações, mesmo que nos deparemos com um acidente com várias vítimas, vinte bombeiros devidamente equipados, são suficientes para dar resposta à situação. O que é importante numa situação anómala é a primeira resposta.

Melhoramos imenso os níveis de resposta à comunidade, mas não podemos deixar de ter bombeiros voluntários devidamente reconhecidos com incentivos e motivados para puderem prestar um serviço eficaz um pouco à imagem do que acontece com as equipas florestais. No período dos incêndios temos uma resposta mais pronta, porque temos um grupo de cinco bombeiros que recebe uma compensação. Não estamos a falar de um ordenado. Ordenado recebe quem trabalha. Trata-se de uma compensação para que esteja no quartel, devidamente preparado e possa acorrer a um incêndio ou a um sinistro.

É, também, necessário mudar algumas mentalidades no seio dos bombeiros. Defendo que deve existir uma coabitação entre o profissionalismo e o voluntariado e que presentemente já vai existindo, mesmo nos nossos bombeiros assalariados.

Uma coisa que é fundamental num quartel é o atendimento do telefone até porque a introdução de dados não pode ser feita pelo tasqueiro que era vizinho do quartel ou, nalguns casos, pelo comandante ou guarda da GNR quando os quarteis eram próximos e atendiam as chamadas. Temos que nos adaptar e com os sistemas e as plataformas eletrónicas temos de dispor de profissionais que manuseiem bem as ferramentas informáticas, que saibam falar, se calhar, até mais que uma língua, porque o socorro pode chegar de um estrangeiro.

É esta coabitação que tem de ser pensada, porque o resto tem funcionado. Para manter uma ambulância, constituída por dois homens, 24 horas por dia, todos os dias do ano, implica um esforço financeiro imenso. Se quisermos profissionalizar o socorro são precisos dez homens. Não é por acaso que o INEM contratualiza com os bombeiros a colocação das suas ambulâncias nos quarteis porque o Estado não aguentava.

São dados que ninguém fala e, apesar de dizerem que os bombeiros são os maiores, todos ostracizam e hostilizam os soldados da paz diariamente.

Alguém algum dia viu os bombeiros hostilizar o INEM? Os funcionários do INEM de quando em vez fazem a sua greve, reivindicam os seus direitos o que é justo uma vez que são trabalhadores, mas o socorro em Portugal não fica por fazer porque os bombeiros continuam a fazê-lo na sua área de atuação própria.

É preciso que alguém vá às televisões e fale abertamente disto. Por isso me insurgi muitas vezes com pessoas ligadas à estrutura nacional dos bombeiros e até com alguns membros do Governo.

 

“As estruturas que suportam os bombeiros estão a ficar cansadas e podem transformar-se em correias de transmissão de alguns partidos políticos”

 

EF: Quais são as prioridades e os desafios com que os bombeiros vão estar confrontados nos próximos anos?

JC: Pelo que me vou apercebendo nas reuniões dos conselhos nacionais, verifico que as estruturas que suportam os bombeiros estão a ficar cansadas e podem transformar-se em correias de transmissão de alguns partidos políticos e isso não pode acontecer porque os bombeiros são estruturas independentes do poder político. No socorro não olham para a cor, para o sexo, a idade. Têm uma dimensão universal. Se nada for feito, o Estado vai ter de pensar alternativas e criar estruturas para as pessoas pagarem. É do conhecimento público que os bombeiros vivem com dificuldades financeiras. Um comandante só pode ser bom comandante se tiver meios para os facultar aos seus homens. Se as associações não dispuserem desse suporte financeiro tornar-se tudo mais difícil. Além das verbas que o Estado dá às corporações, os bombeiros recebem verbas que são transferidas pela Santa Casa da Misericórdia, mas que têm de ser atualizadas. A própria lei do financiamento aos bombeiros precisa de ser renovada.

Se estas alterações não forem ponderadas, cai-se no desânimo e um dia destes não temos pessoal para gerir as associações. Não podemos estar subservientes ao poder político que é o poder mais efémero de todos. Há uma tentativa de intromissão de poderes políticos de qualquer tendência nos bombeiros. Há recentes casos de transportes de equipas de televisão e isto é que tem der ser travado com clareza e respeito pela missão.

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EF: Sente-se uma pessoa amada pelos Bombeiros a Lixa?

JC: Serei eternamente bombeiro. Tenho amor pelos soldados da paz. Sempre tive apoio de muitos bombeiros, de diretores da minha região do distrito, no país e até do estrangeiro. Esse reconhecimento foi-me feito e procurei reparti-lo pelos meus bombeiros. Fui agraciado com a mais altas condecorações em Portugal, quer por parte da Federação dos Bombeiros do distrito quer por parte da Liga dos Bombeiros Portugueses que pelo próprio Estado que na homenagem e no aniversário dos 127 anos dos Bombeiros da Lixa me atribuiu a medalha de prata de proteção e socorro, distintivo laranja. Neste momento, só há três pessoas que a têm em Portugal. Apesar desta forma muito contundente de falar, estas condecorações enchem-nos a alma.

Da Liga dos Bombeiros Portugueses fui agraciado com a segunda mais alta condecoração dos bombeiros em Portugal que é a Fénix de Honra. Já tinha o Crachá de Honra e fiquei com a Fénix. Em Portugal só existem duas pessoas com esta distinção. Tenho também uma medalha de mérito municipal que me foi atribuída pela minha Federação do Distrito do Porto.

Os próprios Bombeiros de Felgueiras de quem é suposto sermos rivais consagrou-me seu comandante honorário. Isto é uma honra e algo que registei.

Apesar da minha ligação a estas instituições, nunca deixei de emitir a minha posição, mesmo quando esta ia contra a posição dominante, em defesa dos soldados da paz. Não podemos estar sempre de acordo com tudo e nem por isso deixei de ser reconhecido. Sou uma pessoa transparente nunca imaginei que me viessem a conceder o reconhecimento de que fui alvo, mas sinto que irei continuar a ser bombeiro. Faço parte da Liga, da Escola Nacional de Bombeiros, da sua assembleia geral e enquanto conseguir irei continuar a colaborar e defender os bombeiros.

 

 

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