A última crónica

Comecei na oposição, quando fazer oposição ainda era apresentar ideias, combater as políticas e não as pessoas. Fazia-se oposição com ideais, e o PPD/PSD e os seus princípios foram, desde muito cedo, a minha opção.

 

Foram muitas as campanhas em que participei, como mero militante, primeiro da JSD, depois do PSD. Depois, já com outras responsabilidades como homem casado e pai, cedo participei em comissões políticas de secção, com várias pessoas com quem aprendi muito. Criei a ideia de que cada um de nós, enquanto cidadão, tem o dever de contribuir para o bem comum e foi com esse espírito que comecei a escrever em blogues sobre política. Criei um blogue, o Felgueiras 2005 com a participação de gente de todas as tendências partidárias que chegava a ter mais de 2 mil visualizações por dia. Era a referência e a informação política da altura. Foi também aí que escrevia criticamente sobre as políticas e ações da presidente Fátima Felgueiras, valendo-me grandes “guerras”. Uma delas deu-me especial prazer.

Foi a propósito da proposta de aquisição, por parte da câmara, do edifício por detrás da mesma onde hoje funciona a Caixa de Crédito Agrícola. Fiz vários posts sobre o valor exagerado da aquisição, sobre o aumento que se pretendia fazer ao edifício, com posições técnicas quanto a valores e regras de urbanismo. Vi, com entusiasmo, a Assembleia Municipal onde PSD usou esses argumentos e convenceu parte dos apoiantes de Fátima Felgueiras a votarem contra. Foi a primeira vitória da oposição numa Assembleia Municipal onde o papel dos presidentes de junta pende sempre para o poder. Foram tempos em que se deixou de fazer oposição sem falar em processos judiciais e focada apenas em aspetos políticos. Nada que não tenha evitado uma ida a tribunal – convocado por ser administrador do blogue – a propósito de um post do Paulo Cunha Ribeiro sobre a destruição do relvado do estádio Dr. Machado de Matos, em que o visado era o vereador de então Bruno Carvalho. Não deu em nada, o Paulo foi “ilibado” com  despacho do Procurador, absolutamente arrasador para o vereador e a câmara pagou a um advogado da praça, se a memória não me falha, 3.500€ por ter ido a tribunal uma vez.

Aí surgiu o convite por parte do Armindo Mendes e do Miguel Carvalho para fazer parte do projeto do Expresso de Felgueiras. Respondi logo que sim – sempre adorei desafios e desafiar-me – e desde aí foi sempre uma montanha russa. Grandes temas foram debatidos, políticas criticadas de forma construtiva. O PSD mudou e com ele a forma de fazer oposição, e isso trouxe sucessos. Primeiro com as conquistas de Juntas de freguesia, e depois com a câmara. Foi um processo surpreendentemente difícil – hoje reconheço – escrever quando somos poder e não oposição. Passei a ter de desconstruir argumentação subjectiva, baseada no ataque pessoal e nas suposições em vez de nas ideias e políticas. O PS foi tomado de assalto e passou por um muito mau bocado. Facilitou a vida para uma segunda vitória esmagadora e isso fez os pensamentos evoluírem – para o bem e para o mal. Dos vários cronistas que por aqui passaram, só eu e o Hélder Quintela estivemos desde o início, e foi este o primeiro a mostrar uma (r)evolução do pensamento ao não se rever no PS, facto que ainda se mantém desde esse tempo. De seguida, com a derrota do PSD em 2017, pus fim à minha participação activa na política no dia 2 de outubro, dia a seguir às eleições. Para além da derrota tinha que digerir as traições, as faltas de apoio, os apoios disfarçados e ainda os travestidos. Para quem sempre tinha dado tudo e vestido a camisola, custou-me – apesar dos erros políticos cometidos – o abandono, a política do contra vinda de dentro do próprio partido, os traidores que a pensar na estratégia pessoal tudo fizeram para que o PSD saísse derrotado nas eleições. Assim era a única forma – acharam eles – de se chegarem ao poder e de serem poder mais cedo. Só o futuro o dirá e eu não tenho bolas de cristal, mas tenho memória e bolas. E é aí que se dá também a minha (r)evolução de pensamento. Livre do dever de lealdade aos órgãos a que tinha pertencido é possível dizer publicamente aquilo que se pensa. E é isso que faço quando referi factos do conhecimento público… que não vou aqui replicar. Os leitores conhecem, e a verdade vem sempre ao de cima… é uma questão de tempo.

Esta é a minha última crónica no Expresso de Felgueiras. Chegou o momento de parar depois de 15 anos a colaborar com o jornal e com os seus fundadores, Miguel Carvalho e Armindo Mendes. Foram centenas de crónicas de opinião, com as minhas e apenas minhas opiniões, respeitando todos quantos tinham opinião diferente da minha. Acompanhei a mudança do jornalismo e dos jornais através da sua adaptação ao online, a novos modelos de negócio e estratégias.

Mas, como tudo tem um fim, a vontade de dedicar mais tempo a mim, ao percurso profissional e projetos pessoais, aliada ao facto de não me rever nesta “nova forma” do Expresso de Felgueiras anteciparam o fim da colaboração.

A todos aqueles que me foram lendo por aqui, concordando ou não comigo, um muito obrigado!