“Ano novo, vida nova”

“Ano novo, vida nova” é um desígnio antigo, mas este ano fará mais sentido e será mais sentido que nunca.

Será também ano de eleições autárquicas.

A nível nacional, com o objetivo de tentar capitalizar a governação PS nos resultados de cada concelho, é expetável que o governo deturpe os atrasos do plano de vacinação comparativamente com outros países e tente fazer crer que “tudo vai ficar bem” rapidamente.

De facto, há muito capital em jogo nas eleições de outubro. São eleições em que não se vota tanto nos símbolos mas mais nas pessoas, mas mesmo assim há uma considerável franja que continua a agraciar ou a penalizar o partido que está no poder.

Por isso, passando agora para um nível mais regional, usando apenas o exemplo da linha de comboio que nos servirá, depois da recente “proposta para elaboração de um acordo de colaboração para a realização de estudo preliminar” (ufa!, é melhor traduzir: estudo do estudo do estudo…) e depois de não sei quantos outros estudos prévios que vêm sendo noticiados nos últimos tempos, não é preciso ser bruxo para antecipar que, mais lá para perto das eleições, os autarcas socialistas desta região serão agraciados com mais algum estudo (desta feita um não tão prévio; talvez uma qualquer proposta inicial de traçado para, assim, haver imagens para mais facilmente se vender o sonho do comboio a breve prazo).

Não me interprete mal o leitor, porque garantidamente ninguém mais que eu ambiciona que o comboio passe em Felgueiras. Apenas sou realista.

 

Ao nível local, parece unânime que não haverá grandes surpresas.

Nuno Fonseca deverá manter a sua equipa intacta. Por um lado, em equipa vencedora não se mexe e, por outro, o PS não terá voz efetiva, além de que no banco de suplentes também não parece haver soluções para refrescar a segunda parte. E para os que se manterão sem ir a jogo, há sempre a esperança do jogo ir a prolongamento, altura em que o natural desgaste obrigará a substituir mesmo os Ronaldos.

E por esta altura parece um dado adquirido que essa equipa dispõe de vários fatores a seu favor para continuar em campo. Vejamos alguns:

1) o benefício do primeiro mandato, aquele em que as desculpas do passado ainda vão colando. São raros os casos de perda da Câmara ao fim do primeiro mandato e o único que me vem à memória, aqui bem perto, na Trofa, deveu-se a erros crassos que por aqui, para já, não são evidentes;

2) o Covid, apesar de não ajudar a um final de mandato em festa com casa farta como o atual executivo desejaria, acabará por servir como uma espécie de desculpa para justificar algumas promessas não cumpridas;

3) o aumento da máquina camarária, seja pelo aumento de funcionários, seja de contratados por qualquer via, aumentou imenso o número de dependentes do orçamento municipal e, não sejamos ingénuos, os beneficiários costumam ser bem agradecidos;

4) o tão ansiado PDM, que era para ser imediato, surgirá bem a tempo de não dar tempo dos destinatários das cartas de amor perceberem que afinal se trata de um amor correspondido, só que proibido;

5) as instituições costumam, muitas das vezes, funcionar como uma espécie de rede de campanha eleitoral e este executivo tem a larga maioria das instituições controlada, arregimentando os de fácil sedução ou colocando fiéis generais no comando das outras, logo que possível.

A forma como o Sim Acredita atua com uma espécie de estratégia militar (entenda-se rigorosa, bem orquestrada e impiedosa), demonstra que não facilita. Apesar de tantos sinais positivos para a vitória em 2021, uma mínima crítica negativa que surja em público é prontamente silenciada pela tropa de elite.

De facto, não se brinca e alguns que observaram muito de perto a derrota de Inácio Ribeiro, aprenderam que não se deve facilitar em nada;

6) o PSD ainda não está (re)unido depois da fragmentação ocorrida durante o mandato anterior, o que, para mim (a par de algumas falhas também, claro), foi o principal motivo da derrota em 2017. E é também o facto de muitos não estarem verdadeiramente de alma e coração, pelo menos para o imediato, que desmotiva e desmobiliza outros que vão tentando fazer alguma coisa e torna o incansável trabalho do seu líder bastante ingrato. Além de que é, de facto, uma enorme perda para o concelho, porque o PSD está repleto de elementos com enorme valor e com objetivos nobres, na pior das hipóteses por algum brio e orgulho pessoal, mas não pela melhoria da sua situação financeira;

7) a maioria dos Presidentes de Junta do PSD trocarão (talvez a conjugação do verbo deva ser no pretérito perfeito) de camisola.

Por tudo isto, num ano em que não se preveem grandes novidades, as principais questões que se colocam são saber quais serão os candidatos do PSD e se o CDS, cuja relevância eleitoral em Felgueiras deverá estar ao nível do PCP, comparecerá às eleições e, em caso afirmativo, se servirá, na prática, para fazer o “jogo sujo”, em termos de campanha, do Sim Acredita, como o fez em 2017, ou se integrará a já tão propalada “coligação positiva”.