(A)Normalidade…. (Des)Esperança!

Vivemos ainda um tempo em que é necessária a contenção e a “reclusão” para travar a disseminação do vírus, mas em que se inicia a preparação do que se apelida de “Regresso à Normalidade”… O que é estranho, porque a “nova” normalidade que teremos pela frente, não se sabe quando (as perspetivas mais otimistas indicam que a sociedade terá que viver com o vírus pelo menos mais um ano até que esteja disponível uma vacina) nem como (Portugal tem uma pirâmide etária bastante envelhecida, e provavelmente os mais idosos terão que permanecer em isolamento social/profilático até bastante mais tarde que as camadas mais jovens), é desconhecida, e será muito diferente da anterior. E não apenas contingencialmente diferente, será estruturalmente alterada pelo impacto que esta crise pandémica terá (quando forem feitas as contas) ao nível económico-financeiro, mas também social, psicológico. Os números são avassaladores: 4.000 desempregados por dia, empresas que vêm a sua produção parada e as encomendas canceladas, e até encomendas que já foram entregues há meses e que os clientes agora querem devolver pois antevêem incapacidade de escoamento!

É claro para todos que por maior boa-vontade que exista virá aí um tempo de austeridade, que em termos de finanças públicas terá um impacto muito significativo na despesa, e que obrigará por exemplo as autarquias locais a diminuirem a despesa, a serem mais criteriosas na forma como gerem o dinheiro público, a reduzir o Orçamento Municipal por força da quebra que terá nas receitas: as transferências da Administração Central, as provenientes de impostos como a Derrama, o IRS, o IMI… A arrecadação de Derrama em Felgueiras já deveria ter tido no tempo da gestão de Inácio Ribeiro alterações no valor e na estrutura; parte do IRS deveria ser devolvido aos munícipes; e, a taxa de IMI já deveria estar no mínimo e agora até deveria ser um estudado um mecanismo de perdão (pelo menos parcial) em 2020! Os tempos que aí vêm não são para populistas, para gestão de imagem! Será um tempo mais uma vez decisivo para a nossa sociedade e para as escolhas que fará.

Neste tempo, basta sair para um passeio higiénico (no meu caso afortunado porque o posso fazer no sopé do Monte de Santa Quitéria) para ver que o mundo natural está a ganhar espaço: na vida, nas cores, nos sons, na atenção com que admiramos num esplendor que já não reconheciamos! E num destes passeios, recordei o que o Cardeal José Tolentino Mendonça escreveu no seu texto intitulado Flores: “Não podemos deixar de desejar, e de desejar ardentemente, que flores selvagens, flores cujo nome não conhecemos, venham também florir à nossa porta. (…) viver distanciado da natureza implica viver distanciado de si.”, e de um outro com o título Parar, porque numa era em que vivíamos sem tempo para parar absorvidos pelo que apelidamos de ritmo da vida existiu de sopetão uma travagem a fundo: “Não temos tempo a perder. E, contudo, precisariamos talvez de dizer a nós próprios e uns aos outros que esperar não é necessariamente uma perda de tempo. Muitas vezes é o contrário. (…) Precisamos verdadeiramente de reaprender o que o sábado ou o domingo significam. O corpo deve encontrar-se não só na atividade, mas também no repouso, libertar-se da pressão do imediato, do peso das solicitações (…).

Quando cai a noite percebemos que as cidades estão tristes pelo silêncio instalado: nunca “ouvi” o Silência da cidade de Felgueiras como numa noite recente. O músico Luís Represas escreveu que “E o Silêncio fez-se ouvir. Para quem não sabia que o Silêncio faz parte da música, desta música com que a Natureza todos os dias, a todas as horas, ininterruptamente num repertório inesgotável nos deslumbra, ele aí está. Fácil os instrumentos da orquestra Natura serem confundidos, esmagados, arreados por outros géneros tão menos musicais (muito embora produtos do mesmo Criador). Já o Silêncio, quando se denuncia por força da partitura, devora-nos os sentidos. Ouvimo-lo, só percebendo que o ouvimos se faz dueto breve com um chilrear qualquer. Revela-se então todo o arranjo da obra escrita com a delicadeza que o Silêncio pede, humildemente, para se fazer ouvir.

Só que estamos na perspectiva da reconstrução após esta catástrofe pandémica, e para esse “Regresso à Normalidade”, a uma normalidade diferente da que conhecemos até agora revejo-me no axioma de Quarantelli: as catástrofes geram mais cooperação que conflito, avizinham as pessoas como nunca, democratizam a vida social e fortalecem a identidade comum, com o surgimento de organizações que se criam e que reforçam a coesão da sociedade para uma resposta concreta e eticamente qualificada.

A todos uma Páscoa Feliz, com uma mensagem do Papa Francisco: “Estamos todos neste barco. Ninguém se salva sozinho”.