(A)Normalidade

A dimensão e a relevância de um país não se mede apenas por indicadores objetivos como território, número de habitantes, riqueza, exportações, mas também pela sua relevância no mundo em outros aspectos como a história, a importância geográfica, a capacidade de influência, a relevância cultural.

 

A relevância cultural ganha ainda mais importância quando é o berço de uma língua viva, com múltiplos sotaques  e variantes que a mais recente tentativa de acordo ortográfico mais uma vez não conseguiu uniformizar (e quem sabe seja a diversidade uma das explicações para a vida desta nossa língua), falada nos 5 continentes, por mais de 260 milhões de pessoas, ou seja, 3.7% da população mundial! Mas, este nosso país, que tanto mundo deu ao nosso mundo, com presença viva em tanto mundo através de um activo global e tão rico como a língua portuguesa, consegue ser por vezes muito pequeno, imerso em tiques mesquinhos e bafientos.

Agora que já se celebrou o 25 de abril como sempre no formato – um formato inadaptado aos tempos atuais, que não desperta a atenção e o interesse das gerações mais novas – e que neste ano de 2020 violou claramente o dever de confinamento necessário, não apenas para cumprir a legislação associada ao Estado de Emergência, mas para impedir o avanço de uma pandemia incontrolável com os meios atuais; agora que já se celebrou o Dia do Trabalhador como quase sempre, como a CGTP quis, mas onde ninguém parece assumir a responsabilidade de ter autorizado a que assim fosse, talvez seja possível evitar as discussões monocromáticas, a preto e branco, de fascistas e de libertários, consoante se esteja a favor ou contra os modelos adotados e escolhidos por quem pode.

Obviamente, estas duas celebrações não estiveram adequadas ao tempo anormal que vivemos, onde, e bem, por razões sanitárias as escolas estão encerradas; as empresas estão a funcionar em regime de teletrabalho; em que se limitam o número de pessoas pessoas presentes em funerais; onde se pede que cada família fique em sua casa evitando o contacto social, para impedir a disseminação da doença para níveis em que o Sistema Nacional de Saúde não consiga tratar todos os doentes, com sequelas que podem ser muito graves, por uma questão de exemplo e de cumprimento do que é pedido aos cidadãos comuns estas celebrações teriam que ser diferentes, na forma e também na linguagem. É inaceitável, para mim, que Isabel Camarinha ( Secretária Geral da CGTP) tenha dito no dia 1 de maio de 2020, em pleno estado de emergência: “Estar na rua é um direito de que não abdicamos!”… Como?… Claro que a CGTP e o PCP irão sempre respaldar-se na legislação que criou uma excepção para a celebração que a Ministra da Saúde diz ser da responsabilidade do Presidente da República, e em que o Dr. Marcelo diz que quando assinou o decreto esperava que tivesse sido diferente e que o modelo seguido foi responsabilidade das autoridades de saúde… Pois, já percebemos: ninguém é responsável por ter autorizado o que aconteceu, porque todos dizem que quando autorizaram não anteviram que estavam a permitir algo que foi como foi!

Em abril de 1974, o Capitão Salgueiro Maia disse: “Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os sociais, os corporativos e o estado a que chegamos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegamos!”

Infelizmente, em abril de 2020 muitos dos nossos políticos não foram capazes de compreender a oportunidade que tiveram em mãos de mudar o estado a que chegaram as celebrações do 25 de abril e do Dia do Trabalhador, adaptando-as ao tempo, tornando-as significativas para todos! Não ter celebrado no Quartel do Carmo foi de facto uma oportunidade perdida de tornar memorável esta celebração evocativa de um dos momentos mais significativos da história contemporânea portuguesa, e de honrar a grandiosidade da Liberdade em Portugal com o Povo a encher virtualmente a parada do Quartel que foi o palco simbólico de um novo tempo para Portugal!

Felizmente, a grandiosidade de um país não se mede pelo “tamanho” dos seus políticos e dirigentes!