Bordadeiras de Felgueiras que mantêm viva arte do filé vão criar cooperativa

FOTO: Anabela Trindade

Várias artesãs mantêm viva, numa aldeia de Felgueiras, a arte de bordar filé, técnica tradicional do Vale do Sousa, que esteve quase extinta, e preparam-se para criar uma cooperativa de ensino e comércio.

“Pretende-se fazer renascer o filé, através da criação de uma cooperativa que contemple várias áreas de atuação, designadamente ensino, criação de emprego e comercialização”, explicou à Lusa fonte do projeto.

José Guedes, técnico da Associação de Desenvolvimento Rural das Terras do Sousa (Ader Sousa), que tem acompanhado o processo, recordou que foi realizada recentemente, com sucesso, uma oficina designada “Rendidos ao filé”.

Nesse projeto, cerca de uma dezena de mulheres da pequena aldeia do Burgo, junto ao rio Vizela, participaram em ações de formação sobre aquele tipo de artesanato.

Antes, a Ader Sousa já tinha realizado a atividade “Há Festa na Aldeia”, que juntou várias artesãs, numa exposição com dezenas de peças, para além de outras ações culturais e de animação.

Foi a dinâmica gerada nas duas atividades que desencadeou a vontade de criar a cooperativa.

FOTO: Miguel Ângelo
FOTO: Miguel Ângelo

Albertina Loureiro e Maria da Conceição Leite, duas artesãs de Vila Fria, aceitaram o desafio de participar naquelas atividades e têm-se dedicado, nos últimos meses, aos bordados, alguns dos quais de grande dimensão e complexidade artística.

Reunidas na aldeia de Burgo, com a suas casas antigas de granito, rodeadas de prados verdes e riachos cristalinos, não muito longe do Mosteiro de Pombeiro, as mulheres tecem, selecionam as cores e criam o filé, com um design criado pelas próprias ou herdado de mães ou avós.

Albertina Loureiro, com cerca de 60 anos, disse à Lusa ter aprendido a técnica muito jovem, com uma irmã.

“Fui trabalhar para uma fábrica e deixei de fazer o filé”, contou, acrescentando ter voltado à arte, no ano passado, quando foi convidada a participar nos dois projetos.

“Foi uma experiência única, de tal forma que estamos já a preparar novas peças para a festa da aldeia que se realiza em julho”, disse.

Todos os sábados, um grupo de sete mulheres da aldeia juntam-se, na sede Junta de Freguesia de Vila Fria, para falar da tradição do filé e bordar, numa atmosfera de convivência.

FOTO: Anabela Trindade
FOTO: Anabela Trindade

A artesã sublinhou haver na localidade mais mulheres que se dedicam à atividade, salientando, que o ofício constitui, ainda hoje, uma fonte de rendimento para várias famílias.

Algumas peças são vendidas, na berma da serpenteante estrada nacional que liga Felgueiras a Guimarães, pelas próprias artesãs ou familiares, o que é uma tradição de várias décadas.

A bordadeira acrescentou que há um espaço comercial no centro de Felgueiras que vende peças de artesanato, aos turistas, manufaturadas com aquela técnica.

Albertina Loureiro reconheceu, por outro lado, que trabalhar o filé funciona como uma terapia que ajuda a combater a solidão.

“Além de trabalhar com as mãos, estamos em contacto umas com as outras. É uma forma de passar o tempo, relaxar e ajuda a combater o isolamento”, assinalou.

Maria da Conceição Leite, outra bordadeira, tem-se notabilizado a fazer xailes que retratam temas do quotidiano.

“Vermos o resultado daquilo que fazemos motiva-nos e faz-nos querer continuar”, comentou, sorridente.

Os bordados nascem da mestria e paciência das mulheres que usam, orgulhosas, uma rede que é tecida com fio de linho, algodão ou seda.

José Guedes explicou à Lusa que, nos últimos 30 anos, quase se deu a extinção do ofício devido ao desaparecimento da maioria das artesãs e até dos carpinteiros, que produziam os quadros de madeira usados para colocar as redes.

“Esse desaparecimento esteve relacionado com o desinteresse dos mais jovens”, lamentou.

O futuro desta arte centenária reside, defendeu o técnico, na aposta num design mais atual, criando produtos alternativos às tradicionais cortinas, naperons e toalhas, como calçado e carteiras de senhora.

A dinamização deste tipo de artesanato, encetada nos últimos meses, acrescentou, vai permitir consolidar o trabalho de preservação do ofício, para além de dar vida à aldeia e fixar a população rural.

Armindo Mendes

C/Miguel Ângelo Pinto Sousa