Covid-19: “Nunca se viveu uma situação tão grave”, considera o médico Francisco Cunha

Para o clínico, “o aumento da perceção, na população, fez-se lentamente, sem se refletir muito bem naquilo que infelizmente estava a acontecer”

Francisco Cunha é um dos mais experientes e reputados médicos de Felgueiras, com dezenas de anos de trabalho no Serviço Nacional de Saúde. Em entrevista ao EXPRESSO DE FELGUEIRAS, aquele profissional de saúde comentou a situação atual no país provocada pela Covid-19, começando por nos dizer que nunca se viveu “uma situação tão grave, ao longo dos muitos anos” que viveu no Serviço Nacional de Saúde”.

 

“IMENSA PREOCUPAÇÃO”

Francisco Cunha disse estar a acompanhar a situação “com imensa preocupação, porque, tratando-se de uma doença provocada por um vírus que sofre inúmeras mutações num período muito curto”, disse acreditar que “não será muito fácil conseguir uma vacina eficaz”.

E prosseguiu: Assim, parece que a ideia que o mundo tinha de que as doenças autoimunes seriam as doenças do século XXI, estava completamente errada e que o mundo teria de voltar um pouco atrás para enfrentar as doenças víricas, desta vez com características mais graves que as habituais e com uma mortalidade muito elevada, nomeadamente no grupo etário dos mais idosos e que são portadores de outras doenças (comorbilidades).

Além disso, defendeu o médico, não se sabe “que tipo de sequelas poderão aparecer naqueles a quem for dado o diagnóstico de curados”.

 

ELOGIO AOS PROFISSIONAIS DO SNS

O médico aproveita o momento para, através do EXPRESSO DE FELGUEIRAS, deixar uma nota em relação ao Serviço Nacional de Saúde. “Nele trabalham diariamente muitos e muitos profissionais dedicados e que, com uma generosidade sem limites e um espírito de sacrifício ímpar, dão todos os dias o máximo pelos pacientes”.

Referiu depois que, “de início, as autoridades não se aperceberam da extensão e gravidade da doença, que estava a progredir com rapidez e com uma mortalidade ainda não muito bem compreendida”.

Segundo referiu, “o mundo ocidental só começou a ter uma verdadeira consciência da extensão e gravidade da situação, quando a China resolveu fazer dois hospitais em quinze dias, quando já tinha determinado a situação de emergência em Huwam. As autoridades de Saúde ocidentais reagiram com alguma tibieza e as nossas reagiram como se viu, em múltiplas afirmações e contradições no mesmo dia, quase pelas mesmas pessoas, como baratas tontas”.

Para o clínico, “o aumento da perceção, na população, fez-se lentamente, sem se refletir muito bem naquilo que infelizmente estava a acontecer”. Anotou depois que “a curva dos casos tem seguido ritmo que se situa dentro dos padrões de aceitabilidade, graças à confinação à residência, bem como todas as outras medidas restritivas impostas e ao excecional trabalho dos profissionais de saúde”.

 

MEDIDAS RESTRITIVA FORAM TARDIAS

Apesar disso, observou, “as medidas restritivas foram tomadas tarde e como as autoridades, nomeadamente a ministra da saúde e a Diretora-Geral de Saúde deram um excelente contributo para que a população acatasse mal, faltando à verdade durante a maior parte do tempo”. Francisco Cunha disse admitir, porém, “a possibilidade de ser necessário rever estas medidas e agravar as mesmas”.

 

SITUAÇÃO PODERÁ NÃO SER TÃO GRAVE COMO EM ITÁLIA OU ESPANHA

Face à evolução da doença em Portugal nos próximos dias, afirmou: Se a população ficar confinada em casa, se cumprir cuidadosamente as recomendações difundidas, se o nosso pessoal de saúde tiver o equipamento necessário para atender os pacientes e que só agora foi adquirido, aguardando-se a sua chegada e distribuição, admito que a situação em Portugal possa não ser tão grave como em Itália ou Espanha”.

Apesar disso, afirmou estar “bastante apreensivo com a doença em si e os efeitos diretos que poderá provocar, mas também com a enorme crise social que se poderá instalar e cuja resolução não parecerá fácil de resolver”.

 

SITUAÇÃO EM FELGUEIRAS

Sobre a situação da Covid-19 em Felgueiras, comentou: “Pelo que julgo saber, o número de doentes em Felgueiras, embora tenha aumentado, não é tão grande como se poderia temer com a frequência da feira industrial. Também não tenho tido nos últimos dias acesso a informação mais concreta e, portanto, não tenho conhecimento se existem doentes internados em serviços de cuidados intensivos. A haver casos internados, em cuidados intensivos ou não, desde já aqui ficam os meus cumprimentos e votos de rápida recuperação.

É natural que aumente o número de casos pelo menos, penso, até perto do dia 03 de abril, que julgo será a hipótese proposta pelos técnicos.

 

RECOMENDAÇÕES AOS FELGUIRENSES

Francisco Cunha deixa alguns conselhos aos felgueirenses: “As recomendações possíveis são as de cumprir com o máximo rigor as recomendações da DGS. Por favor não saiam da casa, lavem frequentemente as mãos cuidadosamente e limpem os puxadores das portas. Se tiver de sair de casa, ao regressar tome um duche, lave as roupas usadas nessa saída e deixe os sapatos fora da porta”

O médico termina, deixando, “para todos os Felgueirenses um grande abraço de solidariedade e muita amizade”.