Crónica de uma vitória anunciada!

Apesar de só ser efetivo depois de contados todos os votos, era notório que o vencedor das autárquicas em Felgueiras estava há muito decidido e garantido (aliás escrevi-o), e que o resultado e representatividade nos órgãos autárquicos seria reforçada, quer em número de vereadores no Executivo Municipal (6-3 era o resultado mais prognosticado), quer em número de freguesias com liderança do movimento de Nuno Fonseca.

 

No entanto, é na Assembleia Municipal que a representação estará mais descompensada: 38 lugares para Nuno Fonseca e nove para o PSD (se a vitória na Assembleia de Freguesia de Jugueiros se confirmar).

Sendo que é a Assembleia Municipal quem detém a função fiscalizadora da atividade municipal, afigura-se evidente que esse objetivo estará comprometido no próximo mandato autárquico, tal como o exercício de oposição em termos de propostas e respetiva votação. O mandato autárquico 2017-2021 mostrou que a bancada maioritária funcionou, sempre, como caixa de ressonância da maioria do Executivo, e o presidente da mesa responsável pela condução dos trabalhos assumiu-se como protagonista e não como moderador.

Durante o mandato e durante o período eleitoral, Nuno Fonseca procurou nunca deixar nenhuma “nesga” aberta para os seus opositores políticos; contou com um período pandémico que favoreceu principalmente os incumbentes relativamente às iniciativas nesse contexto e à vacinação que criaram positividade; “contratou” os presidentes de junta de freguesia saltimbancos que estavam no PSD; assegurou que detinha um exército capaz em número e “dedicação”; alocou todos os recursos e energia necessários para não deixar ninguém para trás na sua máquina e estruturas; garantiu que o PSD não teria nem capacidade de organização interna, nem união, e que o CDS não seria de todo um problema; assegurou que as obras seriam executadas, apesar de todas as peripécias e inexplicações….

Assim, conseguiu um resultado histórico, com um único amargo de boca: a derrota na Junta de Freguesia de Airães, que se transformou para o PSD/Felgueiras numa espécie de aldeia gaulesa de Asterix.

O PSD, que é claramente o – esperado – derrotado da noite, partiu para estas eleições muito debilitado, apresentando aos eleitores uma candidatura Frankenstein, impregnada de handicaps internos (que já abordei ao detalhe em outras crónicas), com falta de comparência em várias freguesias, demonstrando também incapacidade de regeneração e renovação. Este resultado é também o sinal de que alguns “laranjinhas” terão que alterar o nome do grupo do Whatsapp… Vítor Vasconcelos, como líder, é responsável pelo resultado, mas tem muitos coautores neste resultado de 2021.

Quanta a outros protagonistas da noite: o CDS-PP perdeu representatividade (Assembleia Municipal e Juntas de Freguesia), e a Iniciativa Liberal (IL) alcançou um resultado que não faz justiça à capacidade dos que integraram a candidatura – aliás Camilo Rebelo venceu o debate promovido pelo Expresso de Felgueiras ao nível da intervenção, presença e capacidade argumentativa -, mas que expôs fragilidades por exemplo ao nível da comunicação, à qual se deve acrescentar um erro de estratégia elementar, ao não integrar uma coligação com o PSD que permitisse à IL ter representação por exemplo na Assembleia Municipal no próximo mandato.

Este resultado democrático, expresso nas urnas, com uma participação interessante acima dos 60%, deve constituir, contudo, um alerta para a população e para o presidente de Câmara reeleito. A redução da representatividade de outros partidos em todos os órgãos autárquicos representa um claro risco para a democracia concelhia, principalmente na forma como a atividade municipal e das freguesias será fiscalizada.

O resultado autárquico representa também um risco enorme para Nuno Fonseca: o poder absoluto, ou praticamente absoluto, neste caso de uma coligação uninominal, que cada vez mais se irá confundir com a própria Câmara Municipal, poderá trazer problemas ao nível do funcionamento, da relação com os cidadãos e com a sociedade, e da perceção do exercício do poder.

Por agora, é uma vitória clara, saborosa e que deixou os adversários políticos de Nuno Fonseca nestas Autárquicas 2021 no tapete!