Decisões fáceis, insustentáveis!

Se na crónica de opinião anterior abordei o tema do PDM, que ao longo de muitos anos – demasiados – tem transitado de executivo em executivo (ou seja, de Presidente de Câmara em Presidente de Câmara), desta vez trago um tema em que o padrão de comportamento segue o mesmo princípio: “passa ao próximo e não ao mesmo”.

 

E o tema é: Cemitério Municipal de Felgueiras. A necessidade de um novo Cemitério Municipal já passou pelas mãos de Fátima Felgueiras, Inácio Ribeiro e agora de Nuno Fonseca, que de forma curiosa recupera uma localização que foi estudada pela única mulher que presidiu à autarquia felgueirense, mas que foi abandonada por vários motivos: impacto no património verde e ecológico que é o pulmão da cidade e das freguesias abrangidas, e claro pelas débeis e inexistentes acessibilidades. Além claro, da escalabilidade futura do mesmo. Se a opção for “alargar” o atual cemitério na encosta do Monte de Santa Quitéria, isso significará esventra-lo, e abrir a porta a que futuras ampliações venham a continuar a diminuir o espaço verde, vital para que a cidade e todo o espaço envolvente respire e tenha melhor qualidade de vida.

 

Relativamente às acessibilidades, todos conhecem e reconhecem a dificuldade de chegar ao Cemitério atual. Agora pensemos/imaginemos uma infraestrutura que irá mais do que duplicar o espaço atualmente existente, e a implementar nas suas imediações, numa localização contígua à atual no Pé do Monte. O caos nos acessos e circulação será obviamente instalado, e para o evitar só existe a opção de ferir e construir no espaço verde da encosta uma nova via (ou vias) de acesso, que implicará abate de vegetação e ao mesmo tempo colocar pressão de fluxos rodoviários de meios de circulação poluentes onde antes existia floresta e ar puro que deve ser preservado. A estratégia de futuro das cidades consiste em eliminar a circulação de automóveis. A decisão de ampliar o Cemitério Municipal de Felgueiras conquistando e destruindo o Monte de Santa Quitéria contraria todas as estratégias amigas e de preservação do ambiente. Não há como negar!

 

Obviamente existem outras soluções desde que não se opte por uma decisão fácil popular e populista como aquela que está em andamento, que agradará no curto prazo aos eleitores, mas com custos demasiado elevados para as gerações vindouras. Não há como negar!

 

Aliás fico perplexo ao assistir a setores políticos que têm tanta sensibilidade para os valores ambientais suportarem a decisão de Nuno Fonseca apenas porque fazem parte do poder político. É necessária sem dúvida uma perspetiva e análise holística que alguns sectores políticos parecem não ter, ou não querem ter pelo jeito que lhes dá!

 

O Monte de Santa Quitéria deveria ser intocável do ponto de vista de construção de novas infraestruturas que não sejam apenas para preservação do pulmão ecológico, e garantia de usufruto do espaço de forma sustentável pela população. Tudo o resto, como cemitério, novas infraestruturas de comunicação, zonas urbanizáveis, deveria estar e ser absolutamente vedado.

 

Já foi demonstrado por vários estudos a importância de espaços verdes e de árvores nas cidades e nas suas imediações para garantir a qualidade do ar, e até temperaturas mais adequadas para a vida diária. Além disso é premente preservar, até de forma fundamentalista, os espaços verdes e ecológicos, para evitar o desastre climático (recomendo mesmo a leitura do livro de Bill Gates: Como evitar um desastre climático). A decisão de optar pela expansão do atual Cemitério Municipal fazendo o Monte de Santa Quitéria e as gerações futuras “pagarem” pela decisão mais cómoda política e eleitoral do presente é miopia e populismo. Optar pela decisão mais confortável, menos disruptiva, mas menos amiga do ambiente, e menos escalável no futuro, comprometendo-o.