Escavações em Sendim colocam a descoberto casa com dois mil metros quadrados

As escavações na “villa” romana de Sendim, que estão a ser realizadas há cerca de 20 anos, colocaram a descoberto uma casa com dois mil metros quadrados, do século primeiro depois de Cristo, que os técnicos acreditam ter pertencido a um senhor abastado da região.

 

A casa estaria instalada numa propriedade com cerca de duzentos hectares, na agora freguesia de Sendim, explorados pelo proprietário da casa.

O sítio foi identificado em 1992, no âmbito da construção de uma casa, mas o projeto só foi retomado em 1997, altura em que o sítio é classificado como imóvel de interesse público e que se começou a fazer uma investigação mais “séria”, explicou ao Expresso de Felgueiras José Ribeiro, técnico do gabinete de arqueologia da Câmara de Felgueiras.

“A freguesia de Sendim é muito rica, todo este vale de Sendim e Jugueiros é rico em património arqueológico e arquitetónico, é o sonho de qualquer arqueólogo”, confessou o técnico.

 

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Durante os vários anos de estudos e escavações, os arqueológos conseguiram perceber que a casa foi ocupada durante pelos menos cinco ou seis séculos, passando de geração em geração.

“Desconhecemos o real proprietário, se seria um indígena que assimilou a cultura romena e enriqueceu, ou uma pessoa importante de duas cidades que temos aqui à volta que são Bracara Augusta e Tongobriga”, adiantou José Ribeiro, revelando que a casa “seria usada para exploração agrícola e casa de férias”.

Pelo o que está colocado a descoberto, José Ribeiro refere que a casa terá sito ocupada até finais do século VI.

 

Encontrados mosaicos que permitiram identificar trabalho feito com pelo menos quatro cores

Na casa, sobretudo naquele que se pensa ter sido o quarto do proprietário, foram encontrados mosaicos, que possibilitaram a sua reconstrução, em imagem, e a identificação do uso de pelo menos quatro cores.

“O senhor da casa era bastante abastado, que tinha casa para momentos de lazer, e com pormenores que demonstram a sua riqueza”, constatou José Ribeiro.

A casa é tipicamente romana, localizada num território íngreme e acidentado, e que obrigou ao corte da rocha para criar uma área plana para fazer a construção.

 

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Metade da casa escavada, desenvolve-se à volta de um peristilo (jardim), ladeado por dois corredores, que dão acesso ao jardim. Ao longo dos corredores desenvolviam-se os quartos e outras dependências da casa.

A casa tinha complexo termal, construído nos finais do século III/IV, com caldário, para banho de água quente, tepidário para banho de água morna e uma grande piscina, onde era finalizado o banho.

Identificada foi também a existência de uma espécie de capela no interior da casa.

 

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Proprietário tinha escravos para a exploração agrícola e para a manutenção da casa

José Ribeiro explica a história dos achados em Sendim com um brilho no olhar, de quem gosta do que faz e, como o próprio diz, “a arqueologia tem perguntas como uma criança: responde-se a uma, mas logo a seguir vem outra”.

Os estudos arqueológicos efetuados na “villa” de Sendim permitiram a descoberta de factos “importantes” da história e da forma como as pessoas viviam há muitos séculos atrás.

Numa casa de um senhor abastado, como se crê ser a descoberta em Sendim, havia muita mão de obra escrava, quer para a exploração agrícola, quer no interior da casa, onde foram descobertos aquelas que seriam as camaratas para acolher os escravos.

 

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“Eram espaços no interior da casa e próximos dos aposentos do senhor para que, quando este precisasse, os escravos fossem ao seu encontro”, explicou José Ribeiro.

Os estudos indicam que a casa terá ficado ao abandono, mais ou menos a partir do século VI/VII, possivelmente devido às invasões Bárbaras.

“As pessoas que aqui viviam deixaram de ter posses para manter a casa em pé e denotamos que partes da estrutura foram abandonadas paulatinamente”, referiu o técnico.

Na Villa Romana de Sendim há ainda muito para explorar e estudar, estando parte da casa ainda por escavar e milhares de fragmentos de peças encontradas por completar.

 

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