Estórias

Os políticos em exercício de funções, em ciclos de recandidatura, tornam-se menos clarividentes quanto mais próxima está a realização do ato eleitoral, assumindo indisfarçadamente comportamentos populistas, e utilizando o cargo que transitoriamente ocupam para estrategicamente anunciarem a execução de obras que estiveram na prateleira durante três ano e meio de mandato e que miraculosamente saem da cartola em momento pré-eleitoral.

 

Relativamente a comportamentos populistas, também em Felgueiras os exemplos são muitos (até pela natureza comportamental dos políticos em exercício de funções), mas pelo impacto que assumiu é incontornável não referenciar a “apropriação” que os políticos do Sim Acredita fizeram de um momento importante, mas simbólico que é o Hastear da Bandeira das Festas das Vitórias na Lixa. Num tempo em que inclusivamente é recomendada a realização de eventos com um número reduzido de pessoas, a maioria do Executivo Municipal esteve representada pelo Presidente e por praticamente todos os vereadores da maioria, e as juntas de freguesia da área da Lixa (governadas por executivos Sim Acredita ou disfarçadamente independentes) também não deixaram de se mostrar… As Festas em Honra de Nossa Senhora das Vitórias, não são as Festas do Concelho, e são realizadas de forma independente por uma Comissão de Festas nomeada no ano anterior para o seguinte, logo não são “organizadas” pela autarquia, mas por momentos até ficou no ar a ideia de que os festeiros em 2021 seriam os políticos, causando indignação no seio lixense tão bairrista de uma terra, que e bem, é “senhora do seu nariz”!

Em vez de presenças por puro ‘marketing’ eleitoral em tempo de pré-campanha (mas onde ela já está na rua, e a que é feita pelos detentores do Poder é realizada a coberto das funções que desempenham) sem qualquer valor acrescentado ou sequer beneplácito institucional, o Executivo Municipal liderado por Nuno Fonseca, por exemplo, deveria intervir para que seja possível aumentar a disponibilidade e qualidade de serviços públicos no polo urbano da Lixa: voltar a ter uma Repartição de Finanças; garantir o reforço e presença dos CTT para que não surjam surpresas negativas, etc…; (ii) deveria trabalhar na salvaguardada dos bordados e da sua identidade como Bordados da Lixa, na valorização e na certificação ambicionada há décadas, e reconhecidamente importante para a preservação da sua autenticidade e para a valorização profissional de quem os faz, e não ser conivente com o devaneio dos Bordados Terras do Sousa, que retiram toda a carga histórica e a tradição pela qual tantos se empenharam, como são exemplo os artesãos e os comerciantes, mas também as comissões organizadoras da Expolixa e a APROMOLIXA.

 

Quanto às obras é sempre a mesma coisa, a mesma estória: planeamento de obras para estarem concluídas e serem pomposamente e festivamente inauguradas a poucos meses das eleições autárquicas (depois de penosos longos meses de protelamento da sua conclusão, apesar de “carinhosos” murros na mesa sobre intransigência no cumprimento de prazos), em evidentes atos de campanha eleitoral, ou o anúncio e início titubeante de obras no final de mandato.

 

No momento de comemoração dos 47 anos do 25 de abril de 1974, em que o Poder Local foi um dos resultados, e é um dos pilares mais relevantes desta revolução política e social, mas também romântica, não poderemos deixar de refletir na forma como o exercício de cargos executivos e de fiscalização do Poder Local é realizado, e por quem. Muitos dizem que o Poder Local por estar mais próximo da realidade das populações é quem está em melhores condições de resolver os seus problemas. Infelizmente temos muitos exemplos que contrariam esta generalização. E, por outro lado, temos sempre que ouvir e refletir sobre aquilo que Maria José Morgado, Procuradora Jubilada defende: “(…) é na contratação pública e junto ao poder local que mais se nota a corrupção(…)”. Curiosamente as empresas e contratos com empresas para consultoria em Contratação Pública têm florescido!

 

Mas que isto não nos tolde na defesa da democracia e das conquistas de abril de 1974: “Viva o 25 de Abril”, sem deixar de recordar e celebrar a forma como a revolução se cumpriu no nosso concelho: em agosto de 1974 tomou posse em plenário popular realizado em frente ao Quartel dos Bombeiros Voluntários de Felgueiras a Comissão Administrativa liderada pelo Dr. Machado de Matos, composta por personalidades como António Castro, António Joaquim de Sousa, Padre António Leite da Fonseca Durães (pároco da freguesia onde cresci e meu professor), Ernâni Ferreira Bastos, Júlio Teixeira Martins e Mário Pinheiro de Magalhães. A história faz-se também da grandiosidade humana e do carácter de pessoas!