Felgueirense Natália Almeida faz voluntariado desde que se conhece

“Ser viciada no voluntariado é bom”. É desta forma que Natália Almeida, felgueirense de 34 anos, define a sua vocação para a ajuda ao próximo.

Filha de emigrantes, a mulher que bem cedo conheceu o sabor da discriminação, acredita que talvez tenha sido esse o ponto de partida para a sua dedicação aos outros, para a defesa de quem mais precisa.

Ao Tâmegasousa.pt, a jovem, com nacionalidades portuguesa e francesa, contou que viveu em bairros sociais, em França, e foi lá que teve a perceção das diferenças culturais e, acima de tudo, que percebeu as dificuldades de quem procura uma terra para trabalhar, um país melhor para viver.

“Desde pequena que o voluntariado e a ajuda ao próximo marcaram presença na minha vida. Sou filha de emigrantes, vivi em bairros sociais em França, por isso, sei bem o que é ser discriminado. A minha ligação mais direta ao voluntariado surge em 2008, quando estive na Amnistia Internacional”, explicou.

Felgueirense é voluntária na Namíbia 2

Forçada a abandonar aquilo que mais gostava de fazer, o trabalho no Exército Português, devido a doença, Natália Almeida viu-se sem chão e sem perspetivas de futuro.

O desespero, a tristeza e o sofrimento levaram-na, por acaso, até à Namíbia, a convite de um amigo, que é hoje o seu companheiro.

“Em 2008, tive de abandonar o exército devido à artrite reumatoide que decidiu fazer parte da minha vida e acabar com o meu sonho e, nesse momento, o meu mundo desabou. Em conversa com um amigo alemão que conhecia bem a realidade de vários países africanos, ele convidou-me para ir até à Namíbia ver o que era viver sem condições e perceber que, mesmo assim, aquelas pessoas viviam felizes. Fui e fiquei até hoje”, lembrou.

Felgueirense é voluntária na Namíbia 4

San Foundation apoia comunidade SAN também conhecida como “Bushmen”, na Namíbia 

O gosto pela ajuda ao próximo e a aceitação da comunidade SAN levaram Natália Almeida a mudar-se de ‘armas e bagagens’ para a Namíbia, há quatro anos, e dedicar a sua vida a ajudar pessoas que não conhecem coisas tão banais como a luz artificial.

Com a sua vida dividida entre cá e lá, diz-se realizada junto de uma comunidade isolada, sem nada, mas que vive feliz, que sabe acolher e, acima de tudo, que sabe receber a diferença.

O brilho nos olhos de Natália Almeida mostra o orgulho e a paixão que tem pela comunidade SAN, um povo que a ajudou a ultrapassar uma doença e que lhe trouxe de novo a alegria de viver.

“Quando cheguei junto daquela comunidade, percebi que, afinal, os meus problemas não eram nada, à vista do que tinha à minha frente. Pessoas completamente isoladas do resto do mundo. Elas fizeram-me ver que o mais importante é viver o dia-a-dia, é contemplar o que temos”, frisou, lembrando que, ao contrário dos europeus, a comunidade SAN “gosta da diferença e acolhe muito bem quem lá chega para ajudar”.

Com o propósito de ajudar estas pessoas, juntamente com o seu companheiro, Rolf Ackermann, criou a fundação, a SAN Foundation.

Nesse sentido, foram feitas já várias campanhas de apoio, em escolas, catequeses e junto da comunidade em geral, para ajudar em tratamentos de saúde.

É com os olhos embargados que a jovem recorda o dia em que a Willemina, uma criança que nasceu com cataratas, praticamente cega, foi operada e viu pela primeira vez.

Felgueirense é voluntária na Namíbia

“O caso da Willemina foi, sem dúvida, até hoje, o que mais me emocionou. Ela nasceu com cataratas e nós conseguimos, através da campanha ‘um euro, um sorriso’, verbas para operá-la. O momento em que saiu da operação e me olhou foi algo que não consigo descrever por palavras”, confessou, acrescentando que “estas crianças são seus filhos de coração”.

“São meus e eu sou deles. Trata-se de um povo que teve uma história tão difícil e, mesmo assim, consegue ter uma grandeza de coração inexplicável. É isso que me cativa, é isso que me faz trabalhar e ajudar”, disse, lembrando que, como mulher de fé, acredita que “Jesus deve estar muito feliz com esta gente. São os perfeitos cristãos”.

As campanhas de ajuda a este povo continuam, tendo já sido criada lá, uma liga de futebol com 12 equipas seniores e algumas juniores e infantis. O objetivo é levar a educação através do desporto. No futuro, em carteira, está a criação de uma biblioteca na comunidade, no entanto, o grande sonho é a construção de um centro de acolhimento para órfãos.

“O nosso grande sonho é construir um centro de apoio e acolhimento a órfãos, um lugar onde as crianças possam estudar e estar com as condições necessárias. É um sonho, mas acredito que vamos conseguir concretizá-lo”, explicou.