Mulher acusada de homicídio na Lixa, em coautoria com o marido, alega inocência

A mulher acusada, em coautoria com o marido, de ter matado uma vizinha, na Lixa, Felgueiras, surpreendeu hoje o tribunal, antes da leitura do acórdão, ao pedir para falar e contrariar a versão do cônjuge, dizendo-se inocente.
O pedido ocorreu quando o Tribunal de Penafiel se preparava para anunciar a decisão do julgamento.
“Estou muito arrependida por não ter falado. Foi a advogada que me pediu para não falar”, justificou-se perante o coletivo.
Ao longo do julgamento, a arguida tinha-se recusado a depor, mesmo no dia das alegações finais quando foi interpelada pelo Ministério Público. Ao invés, o marido tinha falado, expondo a sua versão dos factos, ocorridos em abril de 2014, confessando o homicídio e o roubo, mas corresponsabilizando a esposa por o ter pressionado para a prática dos crimes.
A propósito, a arguida afirmou hoje: “O que ele falou não tem nada a ver. Eu nunca mandaria matar alguém”. E exclamou: “Sinto muita tristeza, era ele que controlava tudo”.
Por vezes chorando, a mulher disse hoje “estar muito arrependida por ter encoberto este homem, que não valia nada”, referindo-se ao facto de ser conhecedora de que o marido cometera, dois anos antes, um outro homicídio e de nunca o ter denunciado às autoridades.
Interpelada pelo tribunal sobre o que justificara aquele comportamento, explicou que sentia medo, porque que era ameaçada pelo esposo e que temia pela sua vida e da filha.
A mulher disse ter sido coagida pelo marido a seguir para o apartamento, na Lixa, onde vivia a vítima para realizar o assalto. Disse ao tribunal que nunca lhe passara pela cabeça que o companheiro pudesse matar a vizinha.
Contando uma versão diferente da forma como foi consumado o roubo, frisou não ter assistido ao momento em que o arguido degolou a vítima com uma faca de cozinha, negando ter sido ela a mandar executar o crime, como alegara o marido.
“Ele mandou-me para baixo e disse que ia tratar do resto”, afirmou, para justificar que não presenciara o homicídio, do qual só teve conhecimento, disse, na manhã seguinte, ao ler um jornal e ver a foto da vítima. “Fiquei em pânico”, murmurou.
A versão do marido durante o julgamento está, contudo, mais próxima da tese da acusação. No início da audiência, o homem, de 47 anos, dissera ao coletivo de Penafiel que o assalto ao apartamento da vizinha, que vivia sozinha, fora combinado previamente e realizado com a esposa, usando um isqueiro com a forma de arma de fogo para “assustar”. Justificou que o assalto, realizado no dia 27 de abril de 2014, fora motivado por dificuldades financeiras por que passava o casal, porque ambos tinham os ordenados penhorados.
Ao tribunal, o arguido alegara também que a intenção inicial não era matar a vizinha, que só conhecia de vista, mas que o crime acabou por acontecer, porque a vítima conseguiu identificar a esposa quando decorria o assalto.
No final, o representante do Ministério Público, no momento das alegações, reafirmou a sua convicção do envolvimento da mulher no roubo e homicídio, em coautoria com o marido, aludindo às “variadíssimas incongruências” do depoimento de hoje.
Para ambos os arguidos, a acusação pediu ao tribunal penas entre os 23 e os 25 anos de prisão.
A leitura do acórdão ficou marcada para o dia 26, às 15:00.

APM // JPF