Naquele tempo

Nasci numa Felgueiras num tempo de transição. Eram os anos sessenta, e apanhei logo as transformações pelo 25 de Abril de 1974.

 

Logo na escola primária – designação de então, mas que prevalece – havia procedimentos ainda muito indefinidos. Embora ensimesmado, eu reagia a essas imposições!

Lembro, por exemplo, da senhora empregada (designação de então) que andava a limpar na sala anterior. Tocou a campainha – na época a campainha era movimentada e agitada pela mão de uma empregada – e ela corre a mandar que não saíssemos sem pôr as cadeiras em cima da carteira que hoje é a mesa.

Ora eu que ganhara o hábito de arrumar as cadeiras, que ainda mantenho mas não sei onde o adquiri, achei que era o suficiente e não devia voltar atrás – até porque a professora ainda estava dento da sala. Nem a vassoura da senhora empregada a fazer de barreira resultou. Transpu-la com toda a naturalidade.

Cresci numa Felgueiras em que nos queixávamos de não haver nada de lúdico e dizíamos que nos concelhos circunvizinhos havia tudo!

Mais tarde, com uns cobres, alguns colegas e amigos, se íamos para Guimarães, púnhamo-nos à boleia na Zona Verde que se designava “barreira”, penso que porque ali acabava o piso em paralelo a indicar o limite urbano da vila.

Se queríamos ir para Fafe, púnhamo-nos na Rua Oliveira da Fonseca, junto à antiga Farmácia Sampaio. Se quiséssemos ir para Amarante era um pedacinho mais difícil. Um dia, pelo “Junho” (as festas principais de Amarante) cinco ou seis moços, contratamos o serviço com um Táxi que depois nos iria buscar.
Azar o nosso porque não gostámos da festa, aguardamos desolados que nos fosse buscar onde nos deixou.

Para Lousada há aventuras um pedacinho mais engraçadas, a citar um exemplo: dois moços numa motoreta pedaleira que mal aguentava com um, quanto mais dois. – Uma Zundapp suportava três.

Naquela fase dos shopping`s em Felgueiras, recordo que vinha pessoal de Fafe, que ainda não tinha shopping`s. Foi quando o pessoal começou a ver a nossa vila e advento da cidade a crescer desordenadamente. Se não por fazer favores a influentes, era porque esse problema fora de antanho e agora – então … era muito mais difícil ordenar a cidade como gente.

Ou seja: como vila. Como vila a pensar em cidade…

À medida da urbanização, Felgueiras traz das freguesias felgueirenses com poder aquisitivo para habitar os apartamentos – eu que sempre desejei viver numa casa tipo Casa do Sobrado, apenas mais resguardada – não compreendi isso e achava saloio…

Tenho ideia que parte regressou às freguesias de origem, mais recatadas. Mas por força da dinamização da sociedade portuguesa, pessoas houve que foram “forçadas” a vir morar para o centro urbano.

É exactamente aí que vejo a nossa cidade ficar fria, impessoal. Percebo que vivo numa Felgueiras que não é a que eu cresci e não me habituei ainda hoje. Sinto-me invadido como se não seja eu residente em Felgueiras

Hoje, quando se encontra alguns daqueles que aos meus olhos são os legítimos felgareanos, e aqueles que cresci a conhecer os tais estabelecimentos tradicionais, vê-se definhar.

O pessoal daquele tempo, alguns deles que saíram havia muitos anos, recorda que antigamente quando cá vinham, sabiam onde encontrar os contemporâneos.

Era n`A Moderna e se não fosse n`A Moderna era no Café Jardim. Hoje, por mor de todos os utensílios que têm em casa, e pelas redes sociais que deviam aproximar…
E não. É o contrário.

 

Mário Adão Magalhães
(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico).