Pedidos de ajuda alimentar no Vale do Sousa aumentam nas classes média e alta

Grande parte dos pedidos de ajuda alimentar ao núcleo de Lousada da Assistência Médica Internacional (AMI) vem das classes média e alta, de pessoas que perderam rendimentos devido à crise económica, avançou à Lusa o organismo.

“Não estamos a falar dos utentes habituais que já temos referenciados no nosso sistema e que habitualmente recorrem ao núcleo, mas de pessoas provenientes das classes média e alta”, explicou Vasco Bessa, presidente do núcleo da AMI em Lousada, no Vale do Sousa.

O dirigente explicou que a situação é, em muitos casos, “dramática”.

“Estamos a falar de casos novos, de pessoas que não comem pão há quatro ou cinco dias, não têm dinheiro para comprar iogurtes e cujos filhos passaram a levar apenas um pão, sem nada lá dentro, para comer ao pequeno-almoço”, vincou.

Segundo o dirigente, o número de pessoas do Vale do Sousa que recebe ajuda alimentar aumentou em média cerca de 20% nos últimos dois anos, mas nas classes mais altas a percentagem é superior, cifrando-se nos 50%. Paços de Ferreira (zona de Freamunde), Felgueiras e Lousada são concelhos muito afetados, disse.

Atualmente, cerca de 2.700 utentes, de vários municípios do território, estão referenciados, recebendo regularmente sobretudo alimentos e vestuário.

Núcleo da AMI de Lousada 3

Grande parte das pessoas que recorreram à ajuda apresentam vulnerabilidade alimentar. O dirigente destaca casos de empresários, cujos negócios faliram, e que, por isso, se viram obrigados a pedir ajuda, inclusive ao nível das coisas mais básicas, como a alimentação.

“O desemprego é, sem dúvida, um verdadeiro flagelo. Há pessoas que me dizem claramente que não têm de comer em casa”, exclamou.

Em alguns casos, alertou ainda, ambos os cônjuges ficaram desempregados, deixaram de pagar a prestação da casa e der terem dinheiro para as despesas mensais.

À Lusa, lamentou que os governantes nem sempre tenham noção concreta do que se está a passar, sobretudo “as dificuldades e o sofrimento de tantas pessoas”.

O representante da AMI aludiu, a propósito, as situações de “pobreza escondida”.

“Há famílias que, por receio ou estigma social, optam por não recorrer às nossas instalações, por não quererem ser identificadas ou por simples preconceito”, lamentou.

O núcleo está a articular atualmente com superfícies comerciais de Lousada campanhas de recolha de bens alimentares que serão integrados em cabazes de Natal a distribuir por famílias carenciadas e referenciadas pela Segurança Social. Estima-se que sejam beneficiadas mais de 700 pessoas com este apoio.

“Já gizamos um protocolo com as padarias locais no sentido de nos facultarem o pão que não é vendido e que sobra de um dia para o outro”, avançou.

Núcleo da AMI de Lousada 2

A instituição vai promover também uma campanha de atribuição de brinquedos às crianças de agregados familiares carenciados na quadra natalícia.

Apesar das inúmeras solicitações, o núcleo queixa-se da insuficiência de voluntários, que têm diminuído nos últimos anos.

“Não temos mãos a medir. Por isso, peço que outros voluntários se possam juntar a esta causa, porque efetivamente existe imenso trabalho a fazer e as solicitações são imensas”, concluiu.

 

APM // JGJ

Lusa/fim